Espaço de compartilhamento de alguns escritos meus (sem nenhuma pretensão literária),textos de outros escritores e também canções.
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
Negro amor (Andreia)
Surgiu numa madrugada qualquer sem nome
Mas ela ali já se identificara com ele por meio das palavras
Trouxe a leveza da luz da lua
Que ela nunca experimentara
Conheceu-a em toda sua inteireza
E a presenteou com significados que a vida sempre lhe ocultara
Partiu num dia de vento forte com a dureza crua de uma pedra bruta.
P.S.: E não tem mais nada negro amor! (Caetano & Péricles Cavalcanti)
domingo, 6 de novembro de 2011
Sad Spring (Andreia)
A camponesa olhava o horizonte sem nenhuma expectativa. Os campos de girassóis foram arrancados sem que ao menos ela pudesse observar pela última vez e guardar em sua memória toda aquela beleza rara.
Pensava inutilmente o que faria para preservar o que lhe fora roubado pela tempestade devastadora. Guardaria dentro de si as palavras ditas e as não-ditas e seguiria adiante com aquela presença abstrata de seu campo de girassóis lindo e vivo dentro dela.
Alimentaria os seus dias com a lembrança tendo a certeza de que nunca mais se depararia com algo que a tocasse tão profundamente a alma.
A vida seguiria seu curso naquela primavera triste embora ela não percebesse.
Pensava inutilmente o que faria para preservar o que lhe fora roubado pela tempestade devastadora. Guardaria dentro de si as palavras ditas e as não-ditas e seguiria adiante com aquela presença abstrata de seu campo de girassóis lindo e vivo dentro dela.
Alimentaria os seus dias com a lembrança tendo a certeza de que nunca mais se depararia com algo que a tocasse tão profundamente a alma.
A vida seguiria seu curso naquela primavera triste embora ela não percebesse.
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
Brotar a flor do impossível chão
Todos nós temos dificuldades, mazelas que às vezes nos são insuportáveis. O filósofo Nietzsche abordou seriamente a questão na crença de que o sofrimento era necessário e bem-vindo afim de nos motivarmos a enfrentar nossos problemas e superá-los.
Nietzsche usou como exemplo de desafio como os alpinistas fazem ao escalar uma montanha, para se chegar ao topo é necessário esforço e determinação; nada nos chega de graça. Toda conquista é fruto de esforços constantes, muito embora a maioria das pessoas acreditem no oposto. Segundo Nietzsche a pior coisa que o ser humano pode fazer é lamentar-se ou fugir dos problemas fazendo uso de bebidas ou religião como anestésicos para aliviar as dores. É necessário cultivar a dor e extrair da mesma algo positivo, só assim podemos alcançar a felicidade, superando nossas dificuldades.
Nietzsche usou como exemplo de desafio como os alpinistas fazem ao escalar uma montanha, para se chegar ao topo é necessário esforço e determinação; nada nos chega de graça. Toda conquista é fruto de esforços constantes, muito embora a maioria das pessoas acreditem no oposto. Segundo Nietzsche a pior coisa que o ser humano pode fazer é lamentar-se ou fugir dos problemas fazendo uso de bebidas ou religião como anestésicos para aliviar as dores. É necessário cultivar a dor e extrair da mesma algo positivo, só assim podemos alcançar a felicidade, superando nossas dificuldades.
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
Tempo (Andreia)
Na passagem das horas nada de novo se vê
Mas a mudança é perceptível quando olho meu rosto no espelho e nele a marca inevitável do tempo...
O tempo que fere os sonhos de outrora,
Que dilacera a retina cansada de vãs tentativas de enxergar novas possibilidades e sair da contra-mão do estado letárgico.
Visualizo o campo de girassóis na caminhada, mas sou acometida num lapso pela real paisagem: as cinzas das horas...
Mas a mudança é perceptível quando olho meu rosto no espelho e nele a marca inevitável do tempo...
O tempo que fere os sonhos de outrora,
Que dilacera a retina cansada de vãs tentativas de enxergar novas possibilidades e sair da contra-mão do estado letárgico.
Visualizo o campo de girassóis na caminhada, mas sou acometida num lapso pela real paisagem: as cinzas das horas...
terça-feira, 18 de outubro de 2011
Caminhante noturno (Andreia)
Caminho pela estrada escura sem paradeiro na rota
Reviro do avesso os fantasmas internos de passado, presente e futuro
Os pensamentos embaralhados é tudo o que tenho à volta
Como um cão raivoso desconheço tudo o que seja
humano
Grito em silêncio no beco escuro como alguém sem chave que queira abrir a porta.
"É essa a grande diferença entre os poetas e os doidos: o destino da loucura que os tomou." (José Saramago)
Reviro do avesso os fantasmas internos de passado, presente e futuro
Os pensamentos embaralhados é tudo o que tenho à volta
Como um cão raivoso desconheço tudo o que seja
humano
Grito em silêncio no beco escuro como alguém sem chave que queira abrir a porta.
"É essa a grande diferença entre os poetas e os doidos: o destino da loucura que os tomou." (José Saramago)
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
A negação do jogo (Andreia)
É preciso morrer uma centena de vezes
Ficar ausente de tudo e de todos
Para estabelecer o contato que tanto rejeita
O encontro consigo mesma!
Buscar a sua inteireza no labirinto da vida doída
Negar o jogo para que se tenha no fim
Uma vida vivida...
"Eu não quero mais a morte, tenho muito o que viver." (Milton Nascimento)
Ficar ausente de tudo e de todos
Para estabelecer o contato que tanto rejeita
O encontro consigo mesma!
Buscar a sua inteireza no labirinto da vida doída
Negar o jogo para que se tenha no fim
Uma vida vivida...
"Eu não quero mais a morte, tenho muito o que viver." (Milton Nascimento)
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
O eterno latin lover!!! (Andréia)
"É verdade, em determinado momento é preciso ir embora e todo mundo sabe disso. Mas para que servem as verdades inúteis? Acho que todos somos como Dom Quixote: certas ilusões são mais fortes que a realidade." (Mastroianni)
Estou parada diante da tv olhando atentamente a imagem de Marcello. Ele não era apenas um homem belo, era muito mais que isso. Ele é uma das lembranças mais ternas que vez por outra invade meu pensamento, talvez pela quantidade de filmes que eu tenha visto em que ele atuava.
Marcello interpretou no cinema e no teatro personagens muito diferentes dele, que era na intimidade um homem extremamente simples. Amava a vida e a preenchia com seu trabalho. O primeiro filme em que vi Marcello foi em "A doce vida" de Fellini e depois em "Os girassóis da Rússia" de Vittorio de Sica. Pude observar realmente o grande ator que ele era quando vi "Um dia muito especial" de Ettore Scola, Marcello interpretava Gabriele, um homossexual nada alienado que rejeitara seguir Mussolini e o facismo e por isso teve um final triste.
Mastroianni foi o grande responsável por meu interesse em assistir filmes com temática relevante, me lançou nesse gosto que perdura até hoje. Esse doce italiano está em minha memória afetiva eternamente vivo, e presto aqui uma homenagem a ele com o final de sua biografia "Eu me lembro, sim eu me lembro", realizada pouco antes de sua morte.
"Porque a memória é uma coisa esquisita, não? Esquisita como o amor." (Marcello)
O grito de Edvard Munch, a lucidez de mestre Saramago & a minha insensatez (Andreia)

A mente não dá trégua nesse kaos que é o pensamento
E basta um segundo para que se crie castelos de areia para a eternidade do tormento. (Andreia)
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
Sem título...rs (Andreia)
Quero perseguir o teu corpo todo
E nele não achar saída
Que a passagem seja apenas para o gozo
Os gritos e gemidos
De nossas carnes firmes e reais
E nele não achar saída
Que a passagem seja apenas para o gozo
Os gritos e gemidos
De nossas carnes firmes e reais
Usufruindo de toda a possibilidade do instante
Não mais amar só pelo código das palavras
E por meio do filme que a imaginação projeta
Imorais pelo sabor do gesto
Onde o verbo arda até esgotarmos
Todas as letras do alfabeto
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Como se fosse para o Girassol da Rússia (Andreia)

Chegou de repente sem que eu pudesse me previnir
Das intempéries do amor, de uma paixão que nunca senti
Uma distância que tornou-se tão próxima
Instalada hoje em meu ser como algo tangível
E que abala sutilmente todas as minhas estruturas
Brotando cada dia mais suas flores de abril
Você, ser enraizado com sua presença-ausente
Com seu silêncio de morte nutrindo meus dias presentes
E eu vivendo o engano utópico de um dia nos encontrarmos e deixarmos que nossos rios se encontrem com nossos suores.
P.S.:Dedicado ao amigo Danton Medrado que foi sem dúvida uma forte inspiração por conta de seu poema lido "Como se fosse para Inara", a Buarque porque ao escrever me lembrara de uma de suas canções: "Como se fosse a primavera" e a Henry Miller por uma passagem de sua obra "Trópico de Câncer".
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
Que o quase...seja! (Andréia)
Sinto-me pronta e ao mesmo tempo crua
Nesse desejo do encontro com tua carne nua
No entanto ele permanece latejante
Por esperar numa eterna vigília
Que o quase... seja!
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
Menino Urbano de Girassóis nos Olhos (Andréia)
Menino Urbano de girassóis nos olhos
Ser de silêncio e de sombras
Esconde no escaninho do coração
A tua verdade como proteção
Medo talvez do que sente
Faz-se pedra e permanece ausente
No entanto és como uma tarde que aquece o campo dos girassóis
Há uma vida que brota da pedra, uma alma leve como a luz da lua
Ser de silêncio e de sombras
Esconde no escaninho do coração
A tua verdade como proteção
Medo talvez do que sente
Faz-se pedra e permanece ausente
No entanto és como uma tarde que aquece o campo dos girassóis
Há uma vida que brota da pedra, uma alma leve como a luz da lua
Venha sem medo colher as flores do meu jardim...
O sertanejo na visão de Euclides da Cunha e Gilberto Gil...e a linda voz de Renato Braz
O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral.
A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas.
É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gingante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida, num manifestar de displicência que lhe dá um caráter de humildade deprimente. A pé, quando parado, recosta-se invariavelmente ao primeiro umbral ou parede que encontra; a cavalo, se sofreia o animal para trocar duas palavras com um conhecido, cai logo sobre um dos estribos, descansando sobre a espenda da sela. Caminhando, mesmo a passo rápido, não traça trajetória retilínea e firme. Avança celeremente, num bambolear característico, de que parecem ser o traço geométrico os meandros das trilhas sertanejas. E se na marcha estaca pelo motivo mais vulgar, para enrolar um cigarro, bater o isqueiro, ou travar ligeira conversa com um amigo, cai logo — cai é o termo — de cócoras, atravessando largo tempo numa posição de equilíbrio instável, em que todo o seu corpo fica suspenso pelos dedos grandes dos pés, sentado sobre os calcanhares, com uma simplicidade a um tempo ridícula e adorável.
É o homem permanentemente fatigado.
Reflete a preguiça invencível, a atonia muscular perene, em tudo: na palavra remorada, no gesto contrafeito, no andar desaprumado, na cadência langorosa das modinhas, na tendência constante à imobilidade e à quietude.
Entretanto, toda esta aparência de cansaço ilude.
Nada é mais surpreendedor do que vê-la desaparecer de improviso. Naquela organização combalida operam-se, em segundos, transmutações completas. Basta o aparecimento de qualquer incidente exigindo-lhe o desencadear das energias adormecidas. O homem transfigura-se. Empertiga-se, estadeando novos relevos, novas linhas na estatura e no gesto; e a cabeça firma-se-lhe, alta, sobre os ombros possantes aclarada pelo olhar desassombrado e forte; e corrigem-se-lhe, prestes, numa descarga nervosa instantânea, todos os efeitos do relaxamento habitual dos órgãos; e da figura vulgar do tabaréu canhestro reponta, inesperadamente, o aspecto dominador de um titã acobreado e potente, num desdobramento surpreendente de força e agilidade extraordinárias.
Este contraste impõe-se ao mais leve exame. Revela-se a todo o momento, em todos os pormenores da vida sertaneja — caracterizado sempre pela intercadência impressionadora entre extremos impulsos e apatias longas.
É impossível idear-se cavaleiro mais chucro e deselegante; sem posição, pernas coladas ao bojo da montaria, tronco pendido para a frente e oscilando à feição da andadura dos pequenos cavalos do sertão, desferrados e maltratados, resistentes e rápidos como poucos. Nesta atitude indolente, acompanhando morosamente, a passo, pelas chapadas, o passo tardo das boiadas, o vaqueiro preguiçoso quase transforma o "campeão" que cavalga na rede amolecedora em que atravessa dois terços da existência.
Mas se uma rês "alevantada" envereda, esquiva, adiante, pela caatinga garranchenta, ou se uma ponta de gado, ao longe, se trasmalha, ei-lo em momentos transformado, cravando os acicates de rosetas largas nas ilhargas da montaria e partindo como um dardo, atufando-se velozmente nos dédalos inextricáveis das juremas.
Vimo-lo neste steeple-chase bárbaro.
Não há como contê-lo, então, no ímpeto. Que se lhe antolhem quebradas, acervos de pedras, coivaras, moiras de espinhos ou barrancas de ribeirões, nada lhe impede encalçar o garrote desgarrado, porque "por onde passa o boi passa o vaqueiro com o seu cavalo"...
Colado ao dorso deste, confundindo-se com ele, graças a pressão dos jarretes firmes, realiza a criação bizarra de um centauro bronco: emergindo inopinadamente nas clareiras; mergulhando nas macegas altas; saltando valos e ipueiras; vingando cômoros alçados; rompendo, célere, pelos espinheirais mordentes; precipitando-se, a toda brida, no largo dos tabuleiros...
A sua compleição robusta ostenta-se, nesse momento, em toda a plenitude. Como que é o cavaleiro robusto que empresta vigor ao cavalo pequenino e frágil, sustenta-o nas rédeas improvisadas de caroá, suspendendo-o nas esporas, arrojando-o na carreira — estribando curto, pernas encolhidas, joelhos fincados para a frente, torso colado no arção — "escanchado no rastro" do novilho esquivo: aqui curvando-se agilíssimo, sob um ramalho, que lhe roça quase pela sela; além desmontando, de repente, como um acrobata, agarrado às crinas do animal, para fugir ao embate de um tronco percebido no último momento e galgando, logo depois, num pulo, o selim; — e galopando sempre, através de todos os obstáculos, sopesando à destra sem a perder nunca, sem a deixar no inextricável dos cipoais, a longa aguilhada de ponta de ferro encastoada em couro, que por si só constituiria, noutras mãos, sérios obstáculos à travessia...
Mas terminada a refrega, restituída ao rebanho a rês dominada, ei-lo, de novo caído sobre o lombilho retovado, outra vez desgracioso e inerte, oscilando à feição da andadura lenta com a aparência triste de um inválido esmorecido.
A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas.
É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gingante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida, num manifestar de displicência que lhe dá um caráter de humildade deprimente. A pé, quando parado, recosta-se invariavelmente ao primeiro umbral ou parede que encontra; a cavalo, se sofreia o animal para trocar duas palavras com um conhecido, cai logo sobre um dos estribos, descansando sobre a espenda da sela. Caminhando, mesmo a passo rápido, não traça trajetória retilínea e firme. Avança celeremente, num bambolear característico, de que parecem ser o traço geométrico os meandros das trilhas sertanejas. E se na marcha estaca pelo motivo mais vulgar, para enrolar um cigarro, bater o isqueiro, ou travar ligeira conversa com um amigo, cai logo — cai é o termo — de cócoras, atravessando largo tempo numa posição de equilíbrio instável, em que todo o seu corpo fica suspenso pelos dedos grandes dos pés, sentado sobre os calcanhares, com uma simplicidade a um tempo ridícula e adorável.
É o homem permanentemente fatigado.
Reflete a preguiça invencível, a atonia muscular perene, em tudo: na palavra remorada, no gesto contrafeito, no andar desaprumado, na cadência langorosa das modinhas, na tendência constante à imobilidade e à quietude.
Entretanto, toda esta aparência de cansaço ilude.
Nada é mais surpreendedor do que vê-la desaparecer de improviso. Naquela organização combalida operam-se, em segundos, transmutações completas. Basta o aparecimento de qualquer incidente exigindo-lhe o desencadear das energias adormecidas. O homem transfigura-se. Empertiga-se, estadeando novos relevos, novas linhas na estatura e no gesto; e a cabeça firma-se-lhe, alta, sobre os ombros possantes aclarada pelo olhar desassombrado e forte; e corrigem-se-lhe, prestes, numa descarga nervosa instantânea, todos os efeitos do relaxamento habitual dos órgãos; e da figura vulgar do tabaréu canhestro reponta, inesperadamente, o aspecto dominador de um titã acobreado e potente, num desdobramento surpreendente de força e agilidade extraordinárias.
Este contraste impõe-se ao mais leve exame. Revela-se a todo o momento, em todos os pormenores da vida sertaneja — caracterizado sempre pela intercadência impressionadora entre extremos impulsos e apatias longas.
É impossível idear-se cavaleiro mais chucro e deselegante; sem posição, pernas coladas ao bojo da montaria, tronco pendido para a frente e oscilando à feição da andadura dos pequenos cavalos do sertão, desferrados e maltratados, resistentes e rápidos como poucos. Nesta atitude indolente, acompanhando morosamente, a passo, pelas chapadas, o passo tardo das boiadas, o vaqueiro preguiçoso quase transforma o "campeão" que cavalga na rede amolecedora em que atravessa dois terços da existência.
Mas se uma rês "alevantada" envereda, esquiva, adiante, pela caatinga garranchenta, ou se uma ponta de gado, ao longe, se trasmalha, ei-lo em momentos transformado, cravando os acicates de rosetas largas nas ilhargas da montaria e partindo como um dardo, atufando-se velozmente nos dédalos inextricáveis das juremas.
Vimo-lo neste steeple-chase bárbaro.
Não há como contê-lo, então, no ímpeto. Que se lhe antolhem quebradas, acervos de pedras, coivaras, moiras de espinhos ou barrancas de ribeirões, nada lhe impede encalçar o garrote desgarrado, porque "por onde passa o boi passa o vaqueiro com o seu cavalo"...
Colado ao dorso deste, confundindo-se com ele, graças a pressão dos jarretes firmes, realiza a criação bizarra de um centauro bronco: emergindo inopinadamente nas clareiras; mergulhando nas macegas altas; saltando valos e ipueiras; vingando cômoros alçados; rompendo, célere, pelos espinheirais mordentes; precipitando-se, a toda brida, no largo dos tabuleiros...
A sua compleição robusta ostenta-se, nesse momento, em toda a plenitude. Como que é o cavaleiro robusto que empresta vigor ao cavalo pequenino e frágil, sustenta-o nas rédeas improvisadas de caroá, suspendendo-o nas esporas, arrojando-o na carreira — estribando curto, pernas encolhidas, joelhos fincados para a frente, torso colado no arção — "escanchado no rastro" do novilho esquivo: aqui curvando-se agilíssimo, sob um ramalho, que lhe roça quase pela sela; além desmontando, de repente, como um acrobata, agarrado às crinas do animal, para fugir ao embate de um tronco percebido no último momento e galgando, logo depois, num pulo, o selim; — e galopando sempre, através de todos os obstáculos, sopesando à destra sem a perder nunca, sem a deixar no inextricável dos cipoais, a longa aguilhada de ponta de ferro encastoada em couro, que por si só constituiria, noutras mãos, sérios obstáculos à travessia...
Mas terminada a refrega, restituída ao rebanho a rês dominada, ei-lo, de novo caído sobre o lombilho retovado, outra vez desgracioso e inerte, oscilando à feição da andadura lenta com a aparência triste de um inválido esmorecido.
Por ser de lá
Do sertão, lá do cerrado
Lá do interior do mato
Da caatinga do roçado.
Eu quase não saio
Eu quase não tenho amigos
Eu quase que não consigo
Ficar na cidade sem viver contrariado.
Do sertão, lá do cerrado
Lá do interior do mato
Da caatinga do roçado.
Eu quase não saio
Eu quase não tenho amigos
Eu quase que não consigo
Ficar na cidade sem viver contrariado.
Por ser de lá
Na certa por isso mesmo
Não gosto de cama mole
Não sei comer sem torresmo.
Eu quase não falo
Eu quase não sei de nada
Sou como rês desgarrada
Nessa multidão boiada caminhando a esmo.
Na certa por isso mesmo
Não gosto de cama mole
Não sei comer sem torresmo.
Eu quase não falo
Eu quase não sei de nada
Sou como rês desgarrada
Nessa multidão boiada caminhando a esmo.
(Gilberto Gil & Dominguinhos)
domingo, 31 de julho de 2011
O Brasil que pouca gente conhece...
É bonito de se ver
A lua embranquecer
O Mar, de madrugada,
Em frente ao quebra-mar
É bonito de se ver
A água incandecer
Na praia enluarada
Cegando o nosso olhar
E no veludo desse céu azul
Brilha o medalhão da Cruz do Sul
No cordão de prata do luar
É bonito de se ver
A aurora avermelhar o céu
No horizonte cintilar o anel
De ouro velho do astro-rei no ar
É bonito de se ver
O vento estremecer
A vela da jangada
Na tela azul do mar.
(Quebra Mar-Dori Caymmi & Paulo Cesar Pinheiro)
Viagem pelo Universo em verso (Andréia)
A noite sugere uma viagem...
Enquanto o mundo morto dorme, o pensamento caminha para longe. É inevitável não se deixar levar pela escuridão da noite, encontrar outros seres fantasmagóricos que vagam procurando minimizar a solidão.
Enquanto o mundo morto dorme, o pensamento caminha para longe. É inevitável não se deixar levar pela escuridão da noite, encontrar outros seres fantasmagóricos que vagam procurando minimizar a solidão.
quinta-feira, 28 de julho de 2011
Wild strawberries forever!
Construimos vida por meio de nossos sonhos e memórias...o que fazer quando expectadores de nós mesmos percebemos que não há como escapar da certeza da velhice e morte?
Bergman sensacional, sempre retratando nossos dramas existenciais em seus filmes.
quarta-feira, 27 de julho de 2011
Lispector & Fellini: Macabéa e Maria Cabíria
E agora - agora só me resta acender um cigarro e ir para casa. Meu Deus, só agora me lembrei que a gente morre. Mas - mas eu também?! Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos.
Enfim, descobrimos, agora, que tudo começa e acaba com um sim. Também é preciso coragem para morrer, silêncio para ouvir o grito da vida. (Trecho de A hora da estrela)
Ter você (Andréia)
Os vestígios de tua existência encontro nas palavras que são minha companhia na tarde cinzenta.
Quem dera eu pudesse livrar-me da tua imortalidade na minha mente...ou então recomeçar
do zero e abusar do que não fosse apenas um sonho em minhas noites mal dormidas sempre a esperá-lo.
Ter a tua imagem e não só os restos mortais das tuas palavras que avivam e alimentam meus dias vãos. Desfalecer no teu abraço
com o corpo molhado de desejo como uma garoa fina e precisa. Mergulhar fundo no teu ser como um escafrandrista e
respirar só o teu cheiro. Tocar a tua epiderme como quem toca um livro que nunca fora lido, folhear as páginas lentamente
e descobrir os segredos da tua alma.
Ignorar o fim do mundo e morrer nos escombros do teu corpo real, banir da realidade a condenação de mais um dia sem você.
quarta-feira, 6 de julho de 2011
Sunshine (Andréia)
Nada no mundo move-comove
Onde está a luz do sol?
Tudo que encontro é o vazio
As pessoas? Ninguém!!!
Onde está a luz do sol?
Que ela atravesse a vidraça
E aqueça meus dias de imensa solidão.
Onde está a luz do sol?
Tudo que encontro é o vazio
As pessoas? Ninguém!!!
Onde está a luz do sol?
Que ela atravesse a vidraça
E aqueça meus dias de imensa solidão.
segunda-feira, 6 de junho de 2011
Querer e não poder (Andréia)
Quero encaixar o meu desejo na lógica do tempo
A realização da autonomia do sujeito
E eu como sujeito determinado
Tenho que sujeitar-me à indeterminação do tempo
Esse tempo que tudo rege
Que fere o meu rosto com suas marcas
Que dilacera o meu instante
E faz com que eu recomece
Quando já estou ao fundo do fim
Tenho que conviver com semideuses
Esses que vivem sob as rédeas do mundo
Odeio esse otimismo saudável
Que aliena o homem
Deixando-o fraco diante das instabilidades
Quero me desconectar
Mas falta ainda uma brecha para o encaixe do meu desejo.
Quero a liberdade de (ser ) e que me chamem de louca!
A realização da autonomia do sujeito
E eu como sujeito determinado
Tenho que sujeitar-me à indeterminação do tempo
Esse tempo que tudo rege
Que fere o meu rosto com suas marcas
Que dilacera o meu instante
E faz com que eu recomece
Quando já estou ao fundo do fim
Tenho que conviver com semideuses
Esses que vivem sob as rédeas do mundo
Odeio esse otimismo saudável
Que aliena o homem
Deixando-o fraco diante das instabilidades
Quero me desconectar
Mas falta ainda uma brecha para o encaixe do meu desejo.
Quero a liberdade de (ser ) e que me chamem de louca!
O exército branco- Mikhail Bulgakov
"Tudo passa: sofrimento, dor, sangue, fome, peste. A espada também passará, mas as estrelas permanecerão quando as sombras de nossa presença, e nossos feitos se tiverem desvanecido da Terra. Não há homem que não saiba disso. Por que então não voltamos nossos olhos para as estrelas? Por quê?"
domingo, 5 de junho de 2011
Texto de Caio Fernando Abreu
"Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto,
pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo.
Meu coração sangra com uma dor que não consigo comunicar a ninguém, recuso todos os toques e ignoro todas tentativas de aproximação.
Tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso.
A única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso. A única magia que existe é a nossa incompreensão."
pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo.
Meu coração sangra com uma dor que não consigo comunicar a ninguém, recuso todos os toques e ignoro todas tentativas de aproximação.
Tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso.
A única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso. A única magia que existe é a nossa incompreensão."
Um conto (Andréia)
Camille vivia as amarras de seu pequeno mundo de mulher. Dona de um cotidiano torturador que lhe arrancava o sentido de "ser", ansiava
a liberdade por excelência.
Não era uma mulher exuberante mas trazia em seu semblante a nobreza de não ser fatalista, fugia ao cumprimento de regras sociais (a imbecilidade).
Numa manhã ensolarada Camille resolvera sair em busca de seu alimento diário: os livros! A leitura servia-lhe de amparo pois a retirava do mundo ridículo,
este em que as pessoas são ocupadas em nascer e morrer...cegas no caminhar frenético em busca do nada.
Enquanto caminhava, Camille pensava na responsabilidade de ter olhos. Tinha medo que o mundo a tragasse de uma forma nada democrática. O muro era
alto e definitivo.
Ao chegar à livraria começou a procurar algo que a interessasse. Enquanto folheava alguns livros sussurrava em pensamento uma velha canção do Pink
Floyd, "Hey you".
Não imaginava que ali encontraria um habitante de Parsságada, sua alma gêmea. Ao fechar o livro e ao recolocá-lo na prateleira seu olhar encontrou-se
num repente com o olhar de um sujeito estranho que estava ao seu lado. Nada disseram, apenas encotraram-se ali casualmente e olharam-se com a mesma dor.
(Ele) estava com um volume de "em busca do tempo perdido" de Marcel Proust.
Como um bicho acuado Camille pega rapidamente o alimento que escolhera para aquele dia: "Exílio" de Lya Luft. Paga e sai apressada da livraria. Ao sair depara-se
novamente com o sujeito estranho. Ele olha para ela e diz:--"Deixemos as mulheres bonitas aos homens sem imaginação." Podemos caminhar um pouco?
Camille vê naquele homem o seu espelho e aceita prontamente. Seria intuição feminina? Não! Apenas viu naquele homem a possibildade da felicidade do instante,
do jogo livre e o prazer sem leis (pelo não-dito) do silêncio.
Entraram num beco, despiram-se da banalidade e se amaram ali com voracidade, era urgente! Dois seres sem nome: nenhuma pessoa, ninguém!
Camille respirava sem sofreguidão, sorria um riso escancarado como se sua alma estivesse liberta de todas as amarras. O homem também sorria e ambos
se entendiam pela linguagem dos gestos em uníssono: Fodam-se as velhas regras absolutas!
Ofendiam o senso comum do pudor (nus matando os seus desejos), fugindo assim da grande tragédia: envelhecer de tédio, a negação do jogo.
a liberdade por excelência.
Não era uma mulher exuberante mas trazia em seu semblante a nobreza de não ser fatalista, fugia ao cumprimento de regras sociais (a imbecilidade).
Numa manhã ensolarada Camille resolvera sair em busca de seu alimento diário: os livros! A leitura servia-lhe de amparo pois a retirava do mundo ridículo,
este em que as pessoas são ocupadas em nascer e morrer...cegas no caminhar frenético em busca do nada.
Enquanto caminhava, Camille pensava na responsabilidade de ter olhos. Tinha medo que o mundo a tragasse de uma forma nada democrática. O muro era
alto e definitivo.
Ao chegar à livraria começou a procurar algo que a interessasse. Enquanto folheava alguns livros sussurrava em pensamento uma velha canção do Pink
Floyd, "Hey you".
Não imaginava que ali encontraria um habitante de Parsságada, sua alma gêmea. Ao fechar o livro e ao recolocá-lo na prateleira seu olhar encontrou-se
num repente com o olhar de um sujeito estranho que estava ao seu lado. Nada disseram, apenas encotraram-se ali casualmente e olharam-se com a mesma dor.
(Ele) estava com um volume de "em busca do tempo perdido" de Marcel Proust.
Como um bicho acuado Camille pega rapidamente o alimento que escolhera para aquele dia: "Exílio" de Lya Luft. Paga e sai apressada da livraria. Ao sair depara-se
novamente com o sujeito estranho. Ele olha para ela e diz:--"Deixemos as mulheres bonitas aos homens sem imaginação." Podemos caminhar um pouco?
Camille vê naquele homem o seu espelho e aceita prontamente. Seria intuição feminina? Não! Apenas viu naquele homem a possibildade da felicidade do instante,
do jogo livre e o prazer sem leis (pelo não-dito) do silêncio.
Entraram num beco, despiram-se da banalidade e se amaram ali com voracidade, era urgente! Dois seres sem nome: nenhuma pessoa, ninguém!
Camille respirava sem sofreguidão, sorria um riso escancarado como se sua alma estivesse liberta de todas as amarras. O homem também sorria e ambos
se entendiam pela linguagem dos gestos em uníssono: Fodam-se as velhas regras absolutas!
Ofendiam o senso comum do pudor (nus matando os seus desejos), fugindo assim da grande tragédia: envelhecer de tédio, a negação do jogo.
Anjo exterminado (Andréia)
"Já não me abasteço de alegrias convividas
A solidão é paupável
E a mente saturada de anseios
Não me permite traçar objetivos no próximo instante
As esperanças estão mortas e nada mais há do que um grito calado
Sou um anjo exterminado vagando na escuridão
Cavando grotas profundas no meu ser
Buscando inutilmente iluminação
Para os estilhaços da vida restante."
A solidão é paupável
E a mente saturada de anseios
Não me permite traçar objetivos no próximo instante
As esperanças estão mortas e nada mais há do que um grito calado
Sou um anjo exterminado vagando na escuridão
Cavando grotas profundas no meu ser
Buscando inutilmente iluminação
Para os estilhaços da vida restante."
Identidade perdida (Andréia)
Fiz de mim o que não podia ser, viajei nos teus olhos e perdi-me.
Acompanho o rastro de tua paisagem como uma passageira visionária que anulada
de si mesmo, descobre-se no teu molde que é perfeito.
Estou repleta de você e não encontro solução para ausentá-lo de mim...é um mal
necessário que prolongo na tentativa de alimentar uma vida mínima.
Nos meus sonhos posso tê-lo tão próximo ao meu desejo que o mesmo chega a consumar-se. Acordada percebo o equívoco, você é uma esfinge a ser decifrada: tão alheio.
Conservo ainda o disfarce do que eu era para que ninguém suspeite a desordem discreta que provocaste em minh'alma.
Adquiri uma postura de caçadora e você é o anjo torto do poeta Carlos impulsionando-me para vida, comandando a busca de minha identidade perdida.
A renúncia (Andréia)
Acordara ainda com a visão de um sonho desordenado. Era um sonho indescritível e que não rimava com a realidade.
Pensava um dia colocá-lo em prática, proclamá-lo aos quatro ventos e assim, desafiar a própria vida. Obeservava a
covardia do ser humano em fantasiar a felicidade e esconder a ferida. A vida de improviso porque é desconfortável
ser o que é. Era imensa a vontade de expelir tudo que a angustiava e ver o que sobrava. Estancar a vida em suas
insignificâncias, afim de chegar ao inteiro de si. Pensava que ao tentar se descobrir os nós da neurose se desfariam
e a cura seria a liberdade de não mais ser escrava de seus vários "eus" que tanto a perseguiam.
Numa atitude desvairada rasgou a ferida e imergiu no universo de sua alma. As portas de seu coração tentaram
inutilmente contê-la. Ao retornar voltou embriagada de seu inferno de desejos e com seus conflitos internos muito
mais aguçados.
Adotou como regra primária fugir de si mesma. A alma arrancara-lhe todas as esperanças e o que sobrou foi a loucura
e a sua eterna procura.
A prática do sonho estagnada permitira o uso contínuo da máscara. Era uma proteção!
Era poder suportar a vida sem tocá-la.
O encontro (Andréia)
Acordara com a sensação de que viveria seu último dia, ou seria o seu primeiro? Saía para aquele tão esperado encontro com o coração aos pulos...era incontrolável
agora a sua ansiedade, mas estava feliz. Chegara ao lugar marcado meia hora antes, impacientava-se olhando cada transeunte que passava naquela estação tentando
inutilmente reconhecer num deles aquele rosto que imaginava mas que não conhecia. De repente ele se aproxima e diante dela surge aquela paisagem maravilhosa, ela sorri um sorriso tímido
e não sabe o que fazer com as mãos por isso as coloca nos bolsos do casaco marron.
A multidão dificultava a comunicação, ambos não queriam testemunhas..bastavam-se. Ele sugere um lugar reservado onde poderiam estar a sós, ela de pronto aceita. Alugam
por algumas horas um quarto na metrópole de pedra, adentram aquele espaço quieto e ela por sua vez comtempla aquele homem como se ele tivesse a capacidade de repor
a sua vida no lugar. Pouco disseram, olhavam-se numa ternura sem fim, o não-dito era interpretado e entendiam a mensagem. Quando finalmente se tocaram sentiam a vida agir,
libertando-os naquele momento do pântano de solidão.
Havia algo a mais presente naquele instante, era o amor que instalava-se sem pedir licença, numa fúria de carinhos e desejos, ávido e sem perder tempo. Num lapso estavam nus e seus corpos se deliciavam, rasgavam o tecido da alma num improviso que a própria situação exigia. Cegos e cheios de desejo, amavam-se como selvagens...seus corpos entrelaçados e bocas grudadas. A vida se fazia presente em cada espasmo orgástico...o néctar dos deuses jorrava em seus corpos que agora eram apenas um! Ficaram assim nessa íntima entrega até ficarem exaustos. Depois deitados, ela acariciava aquele rosto que era lindo e ele os cabelos desalinhados dela. Trocaram algumas palavras, não precisava dizer muito...durante um longo período haviam utilizado as palavras em suas atorduadas solidões no negror dos tempos, havia então pouco a dizer. Entendiam-se bem nos olhares, eram de uma cumplicidade ímpar!
Chegara então a hora de partir...era inevitável! Ele a levou até á estação onde haviam se encontrado, ela só conseguiu dizer um "até breve"...ele nada disse, apenas assentiu com a cabeça. Ele segue apressado ao seu destino, ela fica ainda olhando aquela imagem se perder no espaço e seu coração bate parado naquela estação. Quando o veria novamente? Não sabia.
agora a sua ansiedade, mas estava feliz. Chegara ao lugar marcado meia hora antes, impacientava-se olhando cada transeunte que passava naquela estação tentando
inutilmente reconhecer num deles aquele rosto que imaginava mas que não conhecia. De repente ele se aproxima e diante dela surge aquela paisagem maravilhosa, ela sorri um sorriso tímido
e não sabe o que fazer com as mãos por isso as coloca nos bolsos do casaco marron.
A multidão dificultava a comunicação, ambos não queriam testemunhas..bastavam-se. Ele sugere um lugar reservado onde poderiam estar a sós, ela de pronto aceita. Alugam
por algumas horas um quarto na metrópole de pedra, adentram aquele espaço quieto e ela por sua vez comtempla aquele homem como se ele tivesse a capacidade de repor
a sua vida no lugar. Pouco disseram, olhavam-se numa ternura sem fim, o não-dito era interpretado e entendiam a mensagem. Quando finalmente se tocaram sentiam a vida agir,
libertando-os naquele momento do pântano de solidão.
Havia algo a mais presente naquele instante, era o amor que instalava-se sem pedir licença, numa fúria de carinhos e desejos, ávido e sem perder tempo. Num lapso estavam nus e seus corpos se deliciavam, rasgavam o tecido da alma num improviso que a própria situação exigia. Cegos e cheios de desejo, amavam-se como selvagens...seus corpos entrelaçados e bocas grudadas. A vida se fazia presente em cada espasmo orgástico...o néctar dos deuses jorrava em seus corpos que agora eram apenas um! Ficaram assim nessa íntima entrega até ficarem exaustos. Depois deitados, ela acariciava aquele rosto que era lindo e ele os cabelos desalinhados dela. Trocaram algumas palavras, não precisava dizer muito...durante um longo período haviam utilizado as palavras em suas atorduadas solidões no negror dos tempos, havia então pouco a dizer. Entendiam-se bem nos olhares, eram de uma cumplicidade ímpar!
Chegara então a hora de partir...era inevitável! Ele a levou até á estação onde haviam se encontrado, ela só conseguiu dizer um "até breve"...ele nada disse, apenas assentiu com a cabeça. Ele segue apressado ao seu destino, ela fica ainda olhando aquela imagem se perder no espaço e seu coração bate parado naquela estação. Quando o veria novamente? Não sabia.
A vida (Andréia)
Um movimento apenas, apenas um e a energia do corpo fará o que tem que ser feito, sem muito pensar e mecanicamente. Será essa vida tão vivida em ação? O sentido das coisas seria a arrumação externa? Subo a linha imaginária que é tão mais significativa, a sensação de chegar ao topo e avistar lá de cima a minha indiferença ao corre-corre diário das pessoas em busca do nada. Nada é o que se tem! A brisa toca o meu rosto e o meu pensamento viaja por lugares que nunca estive ou estive sempre?
Não desejo essa alegria tão contemplada dos sorrisos plásticos, ela é patética e completa. Prefiro as minhas lágrimas e nessa minha incompletude sentir a vida como realmente ela é.
" Dá-me a tua mão desconhecida, que a vida está me doendo, e não sei como falar...a realidade é delicada demais, só a realidade é delicada, minha irrealidade e minha imaginação são mais pesadas." (Clarice Lispector)
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