domingo, 5 de junho de 2011

Um conto (Andréia)

Camille vivia as amarras de seu pequeno mundo de mulher. Dona de um cotidiano torturador que lhe arrancava o sentido de "ser", ansiava
a liberdade por excelência.
Não era uma mulher exuberante mas trazia em seu semblante a nobreza de não ser fatalista, fugia ao cumprimento de regras sociais (a imbecilidade).
Numa manhã ensolarada Camille resolvera sair em busca de seu alimento diário: os livros! A leitura servia-lhe de amparo pois a retirava do mundo ridículo,
este em que as pessoas são ocupadas em nascer e morrer...cegas no caminhar frenético em busca do nada.
Enquanto caminhava, Camille pensava na responsabilidade de ter olhos. Tinha medo que o mundo a tragasse de uma forma nada democrática. O muro era
alto e definitivo.
Ao chegar à livraria começou a procurar algo que a interessasse. Enquanto folheava alguns livros sussurrava em pensamento uma velha canção do Pink
Floyd, "Hey you".
Não imaginava que ali encontraria um habitante de Parsságada, sua alma gêmea. Ao fechar o livro e ao recolocá-lo na prateleira seu olhar encontrou-se
num repente com o olhar de um sujeito estranho que estava ao seu lado. Nada disseram, apenas encotraram-se ali casualmente e olharam-se com a mesma dor.
(Ele) estava com um volume de "em busca do tempo perdido" de Marcel Proust.
Como um bicho acuado Camille pega rapidamente o alimento que escolhera para aquele dia: "Exílio" de Lya Luft. Paga e sai apressada da livraria. Ao sair depara-se
novamente com o sujeito estranho. Ele olha para ela e diz:--"Deixemos as mulheres bonitas aos homens sem imaginação." Podemos caminhar um pouco?
Camille vê naquele homem o seu espelho e aceita prontamente. Seria intuição feminina? Não! Apenas viu naquele homem a possibildade da felicidade do instante,
do jogo livre e o prazer sem leis (pelo não-dito) do silêncio.
Entraram num beco, despiram-se da banalidade e se amaram ali com voracidade, era urgente! Dois seres sem nome: nenhuma pessoa, ninguém!
Camille respirava sem sofreguidão, sorria um riso escancarado como se sua alma estivesse liberta de todas as amarras. O homem também sorria e ambos
se entendiam pela linguagem dos gestos em uníssono: Fodam-se as velhas regras absolutas!
Ofendiam o senso comum do pudor (nus matando os seus desejos), fugindo assim da grande tragédia: envelhecer de tédio, a negação do jogo.



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