domingo, 2 de dezembro de 2012

Escrever, escrever, escrever... (Andréia)

Agora ela se dera conta do abismo que se interpõe entre a ideia e sua concretização...a insuficiência gerada retarda seus anseios. Um disperdício que divaga num pensamento encalhado, a mesmice do nada em dias que se arrastam. Não sabe mais avaliar a necessidade de escrever, apenas o faz como um ato de amor, como se tão somente por meio de um agrupamento de palavras pudesse suavizar a sua angústia, incluir-se num beco do qual já fora descartada...só assim pode respirar!!!
A tempestade que devasta tudo ainda é sua segurança, prende-se em arbustos afim de que possa quem sabe mudar o rumo dos ventos e novamente sentir o sol em seu quintal.
Amplifica a esperança-morta, incapaz de virar a página do livro, assim consola-se no refinamento das palavras que escreve inutilmente.
Longe de ser loucura, e por ser tão especial pra ela...ainda escreve para se abastecer dos resíduos de ontem.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

As relações humanas só são possíveis por meio da reciprocidade


"O ser humano se torna eu pela relação com o você, à medida que me torno eu, digo você. Todo viver real é encontro." (Martin Buber)




Sergio Sampaio conseguiu retratar bem em "meu pobre blues" a falta de reciprocidade numa canção feita para um amigo, aquele amigo que dispensa detalhes pequenos, que dirá grandes...




Meu amigo

Um dia eu ouvi maravilhado
No radinho do meu vizinho
Seu "rockzinho" antigo
E foi como se alguma bomba
Houvesse explodido no ar
E todo povo brasileiro 
Nunca mais deixou de dançar
E desde aquele instante
Eu nunca mais parei de tentar
Mostrar meu blues pra você cantar

Foi inútil...

Eu juro que tentei compor
Uma canção de amor
Mas tudo pareceu tão fútil...
E agora que esses detalhes
Já estão pequenos demais
E até nosso calhambeque
Não te reconhece mais
Eu trouxe um novo blues
Com cheiro de uns dez anos atrás
E penso ouvir você cantar

Mesmo que as mesmas portas

Estejam fechadas
Eu pretendo entrar
Mesmo que minha mulher
Depois de me escutar
Ainda insista
Que você não vai gostar

Mesmo que o gerente

O assistente ou o inteligente
Ainda não me queira acreditar
Vou fingir que tudo isso não é nada
E que algum dia, em plena praça
Eu posso te encontrar

Blues tão rico

Só que já não esconde
Que o meu pobre coração
Está ficando um tanto quanto aflito
Pois deve estar pintando o tempo
Em que você começa a gravar
No seu próximo disco
Eu quero tanto ouvi-lo cantar
Eu não preciso de sucesso
Eu só queria ouvi-lo cantar
Meu pobre blues e nada mais
É tão simples...











domingo, 10 de junho de 2012

A contemplação pela lente poética Buarqueana








Eu te vejo sair por aí
Te avisei que a cidade era um vão
– Dá tua mão
– Olha pra mim
– Não faz assim
– Não vai lá não
Os letreiros a te colorir
Embaraçam a minha visão
Eu te vi suspirar de aflição
E sair da sessão, frouxa de rir
Já te vejo brincando, gostando de ser
Tua sombra a se multiplicar
Nos teus olhos também posso ver
As vitrines te vendo passar
Na galeria, cada clarão
É como um dia depois de outro dia
Abrindo um salão
Passas em exposição
Passas sem ver teu vigia
Catando a poesia
Que entornas no chão







Fragmento de Augusto dos Anjos


Eu sou aquele que ficou sozinho

Cantando sobre os ossos do caminho

A poesia de tudo quanto é morto!


segunda-feira, 26 de março de 2012

How I wish, how I wish you were here...(Andreia)

Sua solidão era maior do que qualquer coisa que pudesse haver. Acostumara-se tanto com ela que permanecia muitos dias sem comunicar-se com outros seres. Neste período sentia a vida doer, uma espécie de exílio do mundo, como se não fizesse parte dele. Surgia num repente, como uma criatura fantasmagórica, talvez para apenas reconstruir-se a partir de um mundo ficcional, a vida real o embrutecera...era perceptível no implícito de suas palavras. A beleza do mundo estava sempre no campo verbal, jamais poderia ser de outra forma...seria como se arrancasse o rio para fora de seu leito como já dissera Clarice. Era inviável!
Com medo que o cercara como presa , sentiu o alívio de fugir de uma situação real, não precisava despedir-se. Sentia o coração duro  bater enquanto iniciava a caminhada para não mais voltar, estava tão apressado em afugentar-se que não se dera conta do ar cinzento a lamentar, temia somente a sua dor. E ela? Atravessava os dias com a necessidade dos afazeres que criara, cumpria a exigência sem queixar-se, no entanto sempre lembrava daquela criatura complexa que habitava o leito vazio de sua memória e dizia em pensamento: How I wish, how I wish you were here...